Projetos para Habitação Acessível Carbono Positivo

A principal missão da cove.tool é combater as mudanças climáticas, auxiliando profissionais de arquitetura, engenharia, construção e incorporação a utilizarem o design baseado em dados por meio da automação e da otimização de custos. Criar a premissa de um concurso que chamasse a atenção para esse tema crítico era fundamental. O recente e histórico relatório de 2021 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) — que alertou para o aumento de ondas de calor extremo, secas e inundações, além do risco iminente de ultrapassar um limite crítico de temperatura em pouco mais de uma década — evidenciou ainda mais essa urgência. À medida que as mudanças climáticas se intensificam, a estabilidade habitacional fica cada vez mais ameaçada. Esses dois problemas indissociáveis tinham o potencial de despertar ideias inovadoras tanto na comunidade internacional de design quanto na sociedade em geral. Com um expressivo grande prêmio de US$ 50 mil, o objetivo era atrair propostas de todo o mundo e fomentar debates sobre habitações de interesse social e carbono positivo que pudessem ser replicadas em diferentes bairros, cidades e países. Sustentabilidade e viabilidade econômica costumam ser vistas como pautas divergentes. No entanto, este concurso provou que existem soluções criativas para problemas complexos.

Quem participou?

A proposta do concurso repercutiu entre designers de todo o mundo, atraindo mais de 1.100 inscritos de mais de 100 países. As inúmeras propostas de alta qualidade enviadas por arquitetos/as, estudantes e entusiastas demonstraram um forte interesse no desenvolvimento de habitações sociais e de carbono positivo. Os projetos enviados variaram de microcasas a edifícios altos, a depender do contexto escolhido. A amplitude criativa no design, na seleção de materiais e nas abordagens mostrou-se extremamente diversa. 

Quem venceu?

Vencedor do Grande Prêmio: Protótipo Residencial Inovador de Baixíssimo Custo e Carbono Positivo, por Saumya Ganguli, Subhash Khadse, Sayim Darvesh e Mekhla Malhotra, da Somnium London Limited.

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Cortesia de cove.tool

A filosofia de projeto por trás da proposta vencedora buscou desenvolver um protótipo de habitação de baixíssimo custo que fosse inovador, sustentável, culturalmente integrado, adaptado ao local e baseado em pesquisas sistêmicas. O projeto utilizou resíduos reciclados e materiais disponíveis localmente para viabilizar uma habitação de interesse social e carbono positivo adaptada ao contexto de uma faixa estuarina de baixa renda e propensa a desastres naturais em Sundarbans, na Índia. O modelo serve de exemplo para contextos climáticos e geográficos semelhantes, permitindo uma aplicação muito mais ampla. A proposta oferece esquemas de baixo custo, replicáveis e de autoconstrução, focados em aproveitar o ambiente circundante para reduzir o consumo de energia e as emissões de carbono.

A inspiração para o projeto surgiu em 2020, nos primeiros meses da pandemia, quando amigos de faculdade de Ganguli na Índia lhe enviaram fotos de um superciclone que atingiu Sundarbans. O desastre causou bilhões de dólares em danos materiais e outras perdas na região. Ganguli, que cresceu perto de Sundarbans, sentiu um forte apelo para agir, embora, naquele momento, houvesse pouco que ele ou seus colegas pudessem fazer para ajudar.

Paralelamente, a empresa de Ganguli, Somnium London Limited, estava desenvolvendo um produto inovador para reciclar plástico misto e de múltiplas camadas. Ao ler um artigo com estatísticas sobre o destino do plástico após o descarte, ele ficou impressionado com o volume de resíduos gerados. Esse dado motivou Ganguli e sua equipe a criarem o material. 

Diante desse cenário, a equipe de projeto da Somnium London Limited decidiu unir as duas ideias em uma proposta abrangente para o concurso. A equipe utilizaria o novo produto para criar componentes de construção inovadores voltados à habitação social de carbono positivo. O plástico reciclado funcionaria como um elemento monolítico aplicado em estruturas marítimas, paredes modulares, painéis de cobertura, deques para ancoradouros fluviais e até mesmo embarcações para a comunidade pesqueira local.

Saumya Ganguli é um arquiteto anglo-indiano radicado em Londres, premiado internacionalmente e com mais de 23 anos de experiência no setor da construção civil. Ele esteve envolvido na concepção e execução de diversos megaprojetos icônicos na América do Norte, Europa, Oriente Médio e Índia. Ganguli acumula uma trajetória consolidada em direção de design, liderança de equipes e entrega bem-sucedida de projetos internacionais complexos, com especialização em infraestrutura de aviação e transportes, além de edifícios de uso misto de alto padrão.

Menção Honrosa: Urban Oasis, por Samuel Barcenas Suarez, Francisco Javier Angulo Grijalva, Ricardo de Matos Camarinha e Stuart James Murray.

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O segundo colocado, Urban Oasis, propõe uma abordagem comunitária de habitação sustentável e acessível para migrantes em Tijuana, no México. Essa estratégia se beneficia de economias de escala, redução nos custos de transporte, segurança comunitária, oferta de serviços e geração de oportunidades. Cada um desses fatores contribui para a viabilidade financeira, a sustentabilidade e a melhoria da qualidade de vida – aspecto anteriormente negligenciado em diversos conjuntos habitacionais mexicanos que hoje se encontram abandonados. 

O projeto aborda a sustentabilidade de forma holística em suas dimensões econômica, ambiental e social, apresentando soluções inovadoras, como a inclusão de um espaço comercial em cada unidade, o que possibilita que a moradia funcione como um ativo gerador de renda. Além disso, adota um sistema de construção progressiva, permitindo que cada habitação se expanda de forma personalizada de acordo com as necessidades da família, oferecendo uma estrutura para ampliações futuras com menor custo inicial. 

Menção Honrosa: Coliving Frames, por Fernando Donis, Abraham Mena, Daniel Gaytán e Alfredo Hernández, do DONIS Studio.

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Também premiado com o segundo lugar (em um empate), o projeto Coliving Frames propõe uma estrutura de múltiplas tipologias desenvolvida de baixo para cima (bottom-up), adaptada às necessidades específicas de diferentes populações e climas, em vez de impor planos diretores que acentuam as disparidades urbanas. A proposta substitui o urbanismo tradicional por um regionalismo crítico que respeita os recursos e as condições ambientais de cada região, priorizando o balanço de carbono positivo e o custo acessível. A escolha dos materiais de construção varia conforme o território, priorizando o que há de mais adequado localmente. Em vez de criar áreas urbanas fragmentadas, o projeto defende a necessidade de cidades estruturadas e sustentáveis que integrem o campo (agricultura) e a malha urbana – não apenas para proteger a natureza, mas também para interagir mutuamente.

A inspiração para o projeto surgiu da pesquisa de doutorado em arquitetura de Fernando Donis, intitulada "FRAME", realizada na Universidade de Tecnologia de Delft (TU Delft) no programa "The City as a Project", liderado por Pier Vittorio Aureli. O trabalho, composto por de cinco capítulos, investiga o arquétipo da estrutura ("frame") na história e na cultura urbana da Cidade do México, servindo de base teórica para repensar as cidades do século XXI como espaços mais compactos, sociais, habitáveis e sustentáveis. 

Fernando Donis é mestre pela Architectural Association de Londres e doutor em Arquitetura pela TU Delft, nos Países Baixos. Ele foi apontado como uma das 30 pessoas mais influentes do México (2011) e um dos mexicanos mais criativos no exterior (2015). Associado de Rem Koolhaas na OMA por nove anos (2000-2009), Donis foi o responsável pelo projeto da sede da CCTV em Pequim em 2002, além de diversos outros projetos e planos diretores. Em 2009, fundou o DONIS, um estúdio internacional de arquitetura, urbanismo, design de produto e pesquisa. O escritório já recebeu diversos prêmios internacionais, incluindo o projeto do Dubai Frame, conquistando o primeiro lugar entre 926 propostas. Com sedes no México e em Roterdã, o DONIS atualmente desenvolve e executa vários projetos de grande escala.

Menção Honrosa: Adaptive System for Tropical Habitat, por Alejandro Vargas M, David Mesa A, Nicolás Jaramillo U e Juliana Osorio, da Entropía Arquitectura Adaptiva.

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O outro segundo colocado (em um empate de duas vias), Adaptive System for Tropical Habitat, volta-se para países em desenvolvimento situados na faixa tropical do planeta, que concentra 45% da população mundial e é a mais vulnerável aos impactos das mudanças climáticas. O projeto combina múltiplas tipologias para atender às demandas de cada tipo de habitat tropical. Em vez de propor um desenho rígido e único, a proposta busca gerar um sistema replicável, escalável e sustentável, integrando técnicas construtivas tradicionais dos trópicos a ferramentas e métodos contemporâneos para elevar a qualidade de vida de seus habitantes. 

A inspiração para o projeto decorre do grande interesse da equipe em investigar problemáticas contemporâneas, como as mudanças climáticas e as economias alternativas em comunidades vulneráveis. Atualmente, os países tropicais são os mais afetados pelo aquecimento global devido à pobreza e aos altos índices de informalidade urbana. Segundo estudos recentes, os deslocamentos provocados por desastres climáticos já superam em três vezes aqueles causados por conflitos armados.

Fundado em 2018 por Alejandro Vargas e David Mesa, o Entropía, equipe responsável pelo projeto, é um estúdio de arquitetura com sede em Medellín (Colômbia). O escritório busca hibridizar projeto, pesquisa e interação digital por meio do desenvolvimento de processos ambientalmente responsáveis, socialmente justos e economicamente viáveis. Para isso, o Entropía estabelece sinergias com a ecologia, o desenvolvimento social, a economia, o design, a engenharia e a arte.

O Júri

O corpo de jurados foi composto por Ralph Raymond, ex-presidente do NOMAtl, presidente eleito da AIA GA e arquiteto de projetos na HOK; Randall Deutsch, FAIA, LEED AP, professor associado clínico na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, autor, palestrante internacional, pesquisador de IA e arquiteto licenciado; Sanford Kwinter, escritor e teórico de arquitetura, cofundador da Zone Books Publishers e professor de Teoria e Crítica no Pratt Institute; Dora Epstein Jones, doutora, teórica de arquitetura, historiadora e chefe do departamento de Arquitetura da Texas Tech University; Graham Hill, fundador e CEO da The Carbonauts, bem como da ExceptionLab Inc e LifeEdited; e M. Casey Rehm, coordenador do programa de pós-graduação em Master of Science em Tecnologia Arquitetônica e diretor do Laboratório de Plataformas e Automação no Southern California Institute of Architecture (SCI-Arc). A cove.tool teve a honra de contar com um júri tão renomado.

A cove.tool celebra as excelentes ideias geradas neste concurso. Muitos dos projetos são replicáveis, sustentáveis e ajudam a impulsionar o debate sobre habitação acessível e descarbonização. Agradecemos a todas as pessoas envolvidas no International Architecture Design Competition por ajudarem a divulgar essas propostas inovadoras para o mundo.

Saiba mais sobre o International Architecture Design Competition aqui.

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Cita: "Projetos para Habitação Acessível Carbono Positivo" [Designs for Carbon Positive Affordable Housing] 29 Mar 2022. ArchDaily em Português. (Trad. Porto, Daniela) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/pt/1134586/projetos-para-habitacao-acessivel-carbono-positivo> ISSN 0719-8906

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