
Utilities busca escavar e documentar as múltiplas camadas do colapso econômico de Beirute e emprega uma lente etnográfica para explorar as manifestações materiais da crise por todo o tecido urbano da cidade. O projeto desenterra o aparato infraestrutural material que emerge como resposta às condições socioeconômicas; painéis solares, tanques de água, geradores privados e fachadas de bancos semelhantes a prisões são todos fragmentos elementares desse aparato.
“(...) Artefatos, coisas, etc., moldam, impactam e transformam ativamente a percepção – e, consequentemente, a compreensão – que os seres humanos têm do mundo em que habitam” (Kirchhoff, 2009). O/a artista busca, assim, escavar o ambiente construído e registrar, através de sua lente, os muitos artefatos da crise econômica do Líbano. A definição ortodoxa de artefato implica um objeto feito pelo ser humano que revela um modo de vida em um espaço específico e em um momento específico no tempo. Segundo essa perspectiva, a crise econômica em Beirute estaria ligada, inscrita ou incorporada em objetos como painéis solares. Utilities captura e isola esses artefatos contemporâneos, não por uma questão de descontextualização, mas para considerar esses utilitários como algo mais do que uma simples representação ou manifestação. O/a artista explora como esses artefatos são, eles próprios, a crise econômica, confundindo as linhas entre o significante e o significado.
Já imerso/a na paisagem social e urbana de Beirute como habitante e artista, o trabalho de Mrad pode ser classificado como uma 'etnografia em casa' que nos leva a pensar através dos objetos. O trabalho de campo etnográfico não exige apenas que seus/suas praticantes se envolvam com as pessoas, mas também com suas coisas. A prática do/a artista avança ainda mais nessa ideia ao focar na paisagem urbana material como um local de fenômenos sociopolíticos e econômicos.
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