
Quando, em 2009, Jacob Ross Boswell, em seu artigo "Dystopic Verdure" na MONU #11 sobre "Urbanismo Limpo", introduziu o tema das doenças — como malária, cólera, tuberculose, febre amarela e tifo, entre outras — e como elas impactaram as paisagens urbanas e a forma das cidades no passado, ficamos muito intrigados e consideramos dedicar uma edição inteira a este tópico. Foram particularmente fascinantes suas elaborações sobre como, na segunda metade do século XIX, urbanistas e arquitetos/as paisagistas como Daniel Burnham, Frederick Law Olmsted e uma série de outros/as arquitetos/as, planejadores/as e arquitetos/as paisagistas colaboraram com colegas da área médica, como John Rauch de Chicago, na remodelação das cidades americanas: alargando ruas e avenidas para permitir um fluxo de ar mais sanitário, movendo cemitérios e lixões pestilentos para as periferias da cidade, esculpindo, recuperando ou simplesmente confiscando terrenos para os primeiros grandes parques urbanos da América, como o Central Park de Nova York. Contudo, acabamos por abandonar a ideia de criar uma edição inteira da MONU sobre a relação entre doenças e cidades, uma vez que nos parecia algo que pertencia apenas ao passado.
Entretanto, desde o recente surto da pandemia global de coronavírus com a qual o mundo inteiro luta atualmente, não parece haver tema mais presente do que discutir as consequências das doenças — e, em particular, das doenças infecciosas e contagiosas — para as cidades. Portanto, consideramos necessário, importante e urgentemente relevante iniciar uma reflexão sobre o "Urbanismo Pandêmico". Dessa forma, desejamos conectar-nos — e dar continuidade — a discussões que já começaram, nas quais alguns/algumas preveem, ou esperam, que a covid-19, a doença do coronavírus, remodele e transforme as cidades. O urbanista Joel Kotkin parece prever o fim da era da megacidade, argumentando que cidades "germânicas" como Nova York perderão seu apelo. Por outro lado, Richard Florida, um dos colaboradores da nossa atual edição da MONU #32 sobre "Urbanismo Acessível", parece questionar isso, apontando que a pandemia de gripe de 1918-19 não interrompeu o crescimento de cidades como Chicago. Embora surtos terríveis de peste e cólera mal tenham atrasado o crescimento de cidades como Londres ou Paris no passado, essas doenças influenciaram, evidentemente, essas cidades de várias maneiras.
