
Espaço e Patrimônio
Sobre a Generatividade de Mundos Circundantes
Em seus fragmentos de manuscritos sobre a percepção, o filósofo Edmund Husserl falava de um certo espessamento da experiência temporal como uma aquisição, isto é, como uma espécie de “patrimônio” (Erbe) que assume a forma de um habitus incorporado, inerente à experiência vivida do espaço. Esta edição especial da Future Anterior toma essa percepção fenomenológica como pista norteadora e investiga a relação desse sentido íntimo de patrimônio, enquanto devir incorporado do sujeito, com alguns de seus sentidos mais amplos, normativos e críticos nos estudos do patrimônio. Esta edição é dedicada ao tema do patrimônio, visto em termos de seu sentido implícito como um modo de experiência vivida que é incorporado e, dessa forma, espacial. Abordar a questão do patrimônio a partir dessa perspectiva pode contribuir para exames críticos mais amplos do conceito, como aqueles explorados no volume recém-publicado Heritage Futures, que contém uma rica pesquisa multidisciplinar comparativa sobre práticas de patrimônio cultural e natural (Harrison et al. 2020). Ao sugerir que o patrimônio é um modo de experiência vivida, a edição enfatiza questões de subjetividade e intersubjetividade na exploração do significado do patrimônio; e, ao propor que tal experiência é espacial, coloca em primeiro plano questões de corporificação e experiência vivida do corpo. Essa virada para questões de espacialidade incorporada e intersubjetividade é também uma virada “generativa”, que funciona para abrir certas possibilidades de crítica e renovação do tema do patrimônio que esta edição especial deseja explorar.
