
Em tempos de fugacidade, nos quais a emoção envelhece antes de alcançar a consciência, é necessário que o/a indivíduo/a se volte para o ser no mundo: encaminhar-se na busca pela memória. Nos limites da memória, descobre-se o jardim japonês como uma malha transcendente tecida com uma ascese e uma estética que não parecem ser deste mundo. O jardim japonês assemelha-se à natureza na medida em que toma as formas e os elementos da paisagem, mas distancia-se do mundo exuberante e caótico percebido. A natureza é evocada no jardim japonês, mas esta recreação estética da paisagem está sempre tentando alcançar o sagrado.
Este livro não pretende ser uma descrição minuciosa nem uma catalogação dos diferentes tipos de jardins construídos nos últimos mil anos no Japão. É um estudo que, a partir do olhar como conceito fenomenológico principal e fazendo uma clara distinção entre ver e olhar, fundamenta-se nos princípios filosóficos e estéticos da cultura japonesa.
Para explicar o que acontece nesses espaços exteriores, sempre associados à habitação e ao seu habitar, recorre-se à geometria e estudam-se minuciosamente os conceitos básicos desta cultura ancestral, atentando para a inseparabilidade das diferentes manifestações artísticas: a poesia haicai; as anedotas e poemas do famoso Genji Monogatari; a pintura das diferentes épocas e, em especial, o conhecido movimento pictórico ukiyo-e, que teve seu auge na primeira metade do século XIX. E, para tornar compreensível a estrutura espacial dos jardins aos estudiosos/as ocidentais, a análise não se circunscreve apenas ao mundo japonês, pois recorre a temas antropológicos, utiliza a filosofia ocidental, a fenomenologia de Gaston Bachelard ou a poética de Antonio Muñoz Rojas e Octavio Paz, etc. Este é, em resumo, uma viagem iniciática pelo jardim japonês, talvez nunca realizada antes.





