
O lugar que a obra de Gego ocupa na tradição abstrato-geométrica da Venezuela, uma das mais férteis das Américas, é complexo; isso porque esta obra sutil, que paradoxalmente comunica tantos significados, resiste a definições. Por isso, este livro se propõe como uma aproximação da maneira como esta artista, em diálogo com os principais expoentes desta tradição, reconhecendo e compartilhando algumas de suas ideias, expressou livremente seu pensamento.
Gego criou um corpo de trabalho excepcional, que tensiona e transborda o cânone dominante. Ou seja, potencializou o vínculo de seu fazer artístico com a natureza e manteve uma relação com o projeto de modernização distinta da de seus pares contemporâneos, o que a levou a desenvolver uma espécie de abstração impura, uma geometria contaminada, que, com o passar dos anos, torna-se cada vez mais fascinante. Os bichos de Gego, como ironicamente chamava suas criaturas, podem ser interpretados como outro dos signos da modernidade venezuelana que, ao complementar a versão utópica e oficial deste processo, revela-se imprescindível.




