
Após os devastadores terremotos do último mês de setembro, que afetaram mais de 150 mil residências e edifícios em diferentes estados e cidades do México, o resgate e a reconstrução tornaram-se tarefas fundamentais. Reciclar e reconstruir implica uma profunda reparação social e uma valorização do que já existe, evitando demolições indiscriminadas, cujas consequências são irrecuperáveis nos âmbitos econômico, ecológico e patrimonial.
A arquitetura não se escreve sobre uma folha em branco. E muito menos sobre um terreno em branco: história, topografia, orientação e normas informam. No entanto, construir sobre o que já foi construído implica um diálogo mais profundo com a memória, a fim de projetar a partir da subtração, com a energia do lugar para detonar ressonâncias ou regenerar estruturas que já haviam cumprido seu ciclo. Projetar com quase nada é fazer arquitetura para além do edifício, com respeito e audácia. Requer atos sutis e inteligentes para editar o preexistente, selecionar os signos de identidade, do contexto, das forças compositivas que o gestaram e de seu valor patrimonial. Reconstruir por subtração exige uma atitude econômica, ecológica e até mesmo estética, que ative enxertos e podas.
Fazer arquitetura ali, no que já foi construído, pode parecer quase nada. Nesta edição 82 da Arquine, apresentamos projetos e reflexões sobre arquiteturas que transformam espaços com ações tão precisas quanto limitadas: traços novos que dialogam com os anos dos muros na galeria Tiro al Blanco, em Guadalajara; um novo olhar sobre a vizinhança centenária do Proyecto Público Prim, na Cidade do México, para resgatar novas informações de suas paredes; uma estrutura sobreposta a uma loja de departamentos abandonada, para se transformar em um novo centro sociocultural em São Paulo; ou o silêncio respeitoso diante do resgate do bunker berlinense para convertê-lo na coleção Feuerle, entre outros exemplos. Por sua vez, publicamos as reflexões dos autores —quase anônimos— que escavaram o subsolo do Palácio de Versalhes, dissecaram um teatro de bairro em Barcelona, reinterpretaram antigas fazendas em Yucatán ou desmontaram a Galeria Nacional de Mies van der Rohe, em Berlim —como um templo japonês— para repô-la idêntica ao seu estado original.
