As propostas submetidas ao anual Architecture Drawing Prize são avaliadas em três categorias: desenho à mão, digital e híbrido. No ano passado, Dafni Filippa, estudante de pós-graduação no mestrado em Arquitetura de Paisagem (MLA) na Bartlett School of Architecture, venceu na categoria híbrida e também foi consagrada a grande vencedora do prêmio com seu projeto Flood-responsive landscape performance — um desenho primoroso criado por meio de uma variedade de técnicas de representação e modelagem feitas à mão, em gesso e em múltiplas plataformas de software.
Desenho de proposta de concurso número 11956 de Jørn Utzon, Jørn Utzon | Hellebæk, Dinamarca.. Imagem cortesia de State Archives, NSW
Este breve ensaio, escrito pelo autor e crítico Jonathan Glancey, coincide com o lançamento da primeira edição do Architecture Drawing Prize – uma premiação organizada pelo World Architecture Festival, pelo Sir John Soane's Museum e pelo escritório Make. O prazo de inscrição para o prêmio se encerra em 17 de setembro de 2021.
“'Letramento visual' é uma palavra?”, pergunta Ken Shuttleworth, fundador da Make Architects e idealizador do The Architecture Drawing Prize. Sim, é. “Assim como a alfabetização tradicional”, diz ele, “é certamente o que me interessa ao analisar e avaliar desenhos. Trata-se da fluência em produzi-los e compreendê-los.” O Architecture Drawing Prize está agora em seu quinto ano. “Costumamos ver pouquíssimos desenhos feitos à mão por jovens arquitetos/as — eles/as usam majoritariamente computadores — e, hoje, a maior parte dos/as estudantes de arquitetura vem de uma formação mais voltada à matemática e à física do que às artes. Ainda assim, acredito que o desenho à mão seja de suma importância.”
Uma perspectiva em corte extraordinariamente moderna do cruzamento central da Basílica de São Pedro, ainda não construído, por Baldassare Peruzzi.. Imagem cortesia de Oro Editions
Por que um/a arquiteto/a do século XXI deveria se dar ao trabalho de desenhar à mão? Afinal, há uma abundância de ferramentas digitais prontamente disponíveis que fazem com que canetas e lápis pareçam pouco mais do que artefatos primitivos. Olhados com afeto, talvez, mas tão encantadoramente irrelevantes para a arquitetura contemporânea quanto os cavalos de tração são para quem trabalha no campo hoje ou as máquinas de escrever para profissionais da imprensa.
Denis Andernach, Turmhaus, 2010, Tinta sobre papel, 14 1/8 x 18 7/8 in
Um século depois a ideia convincente de que a arquitetura moderna surgiu como uma fênix cegamente branca, cristalina e perturbadora em meio à morte e à destruição da Primeira Guerra Mundial é, talvez, familiar. No entanto, os esboços a carvão e as montagens em chiaroscuro que Mies van der Rohe fez durante e após a época do concurso para o arranha-céu de Berlim Friedrichstrasse de 1921-22, mantêm o poder de chamar a atenção, provocar e perturbar mesmo em nossa era de imagens impressionantes produzidas por e com programas de computador.
O que é mais notável nesses desenhos visionários centenários é que eles retratam um tipo de construção futura, à beira do etéreo e mais ou menos impossível de se fazer naquele momento, nos materiais de desenho mais terrenos. Foi um golpe de gênio usar o carvão para evocar uma arquitetura de leveza que emergia das brasas das trincheiras que revolucionariam a maneira como moldamos prédios altos e com eles as ruas de nossa cidade. Tal é o poder do desenho à mão livre.
Para que servem desenhos de arquitetura? Transmitir informações visuais sobre o projeto de edifícios. Isso é certo. Mas eles fazem muito mais do que isso. Podem ser idiomáticos e ideológicos, podem expressar a personalidade de quem os cria, e podem ser feitos através de qualquer meio - carvão, lápis, caneta ou programa de computador. Podem inspirar, provocar e radicalizar. Podem ser realistas ou fantasiosos. Ou, claro, podem instruir sobre como construir uma representação tridimensional daquilo que se vê no papel ou nas telas. Inteligência visível, eles também podem ser arte.
Dessa forma, lidar com uma competição aberta de desenhos arquitetônicos de todo o mundo, como o The Architectural Drawing Prize, só pode ser um exercício de julgamento aberto, mesmo quando estes foram classificados em três categorias técnicas: Desenho à mão livre, Digital e Híbrido. Como podemos comparar a intrigante análise digital de Chris Raven de Espaços Publicamente Acessíveis na Catedral de St. Paul com o quase perfeito corte transversal de Xinyuan Cao através da Renovação da Vila de Denggao, dois competidores elogiados na categoria de Desenhos Digitais?
Para os arquitetos, diz Narinder Sagoo, diretor de design de comunicação da Foster + Partners, desenhos são responsáveis por contar histórias. Também representam uma maneira altamente eficaz de levantar questões sobre o processo de projeto. Embora a história da arquitetura - certamente desde o Renascimento italiano - tenha sido representada por desenhos convincentes que afirmam a supremacia e refletem a glória de edifícios totalmente resolvidos, há outro modo de representação que permitiu aos arquitetos pensar seus projetos sem preconceitos.