Um novo olhar sobre o patrimônio moderno: ArchDaily firma parceria com o World Monuments Fund

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O que torna um edifício digno de preservação? A idade é a resposta mais comum, mas nem sempre a melhor. Um edifício das décadas de 1950 ou 1970 pode ter tanta relevância histórica quanto uma catedral medieval; a questão exige apenas uma abordagem diferente, que pondere o contexto político, o significado cultural e a inovação arquitetônica em vez da mera passagem do tempo. Isso se aplica sobretudo à arquitetura modernista no chamado Sul Global, onde o movimento assumiu formas de expressão singulares.

É justamente esse debate que o ArchDaily e o World Monuments Fund (WMF) estão abrindo juntos. O WMF traz sua expertise prática em conservação ao redor do mundo, enquanto o ArchDaily entra com a capacidade editorial para contextualizar esse trabalho e conectá-lo a um público global. O objetivo é atuar em duas frentes simultâneas: preservar lugares e contar suas histórias, moldando a compreensão do patrimônio modernista para muito além do próprio campo da preservação.

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Para marcar o início desta colaboração, conversamos com Javier Ors Ausín, diretor de programas temáticos do World Monuments Fund, e com Christele Harrouk, editora-chefe do ArchDaily. Leia a entrevista completa a seguir.

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Christele Harrouk e Javier Ors Ausín

Romullo Baratto [Editor Executivo]: O que esta parceria representa para o World Monuments Fund e para o ArchDaily? Javier, gostaria de começar?

Javier Ors Ausín: Esta é uma nova parceria para o World Monuments Fund, e estamos realmente descobrindo o seu significado à medida que ela se desenvolve. No entanto, o que me parece particularmente especial é o quanto nossos papéis são complementares. No WMF, atuamos diretamente nos locais, implementando projetos de conservação, iniciativas de defesa do patrimônio e a documentação do trabalho de preservação. Trabalhamos com governos, comunidades, ONGs locais e profissionais da área. Ter o ArchDaily como parceiro — uma plataforma que comunica a arquitetura para um público internacional por meio de uma ampla rede — significa que podemos tanto intervir nos locais e preservá-los quanto explicar por que esse trabalho é importante e por que esses lugares são globalmente relevantes. Essa capacidade de conduzir a preservação e a narrativa de forma paralela é extremamente valiosa.

Christele Harrouk: Gosto muito do que o Javier disse sobre essa complementaridade. Representamos duas formas complementares de responsabilidade em relação à arquitetura. O WMF trabalha com as comunidades, os lugares e a conservação física. Nós trabalhamos na narrativa, dando ao mundo acesso a essas histórias. O que torna esta colaboração tão significativa é que ela une essas duas capacidades, tornando o trabalho acessível a um público global e, ao mesmo tempo, contribuindo para a sua salvaguarda.

Afinal, falar sobre algo, documentar, já é em si uma forma de conservação. Para o ArchDaily, esta parceria é especialmente significativa porque nos vemos como participantes ativos da cultura arquitetônica. Esta colaboração nos dá a chance de refletir isso — ajudando a moldar o que é a conservação, o que é o patrimônio e como as pessoas o compreendem e se envolvem com ele.

JOA: Exato. Ao realizar o trabalho editorial e de comunicação, vocês tornam a própria comunicação parte do processo de conservação. No campo da conservação, às vezes nos limitamos a fotografias de "antes e depois". Contudo, comunicar o trabalho do início ao fim também é uma forma de conservá-lo; isso gera visibilidade, conscientização e, em última análise, apoio para as iniciativas e projetos de campo que realizamos.

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Casa Sobre el Arroyo, Amancio Williams. Imagem via World Monuments Fund

RB: Christele, por que o World Monuments Fund e por que agora?

CH: O ArchDaily existe há 18 anos. Quase duas décadas documentando e indo além do que uma plataforma de mídia costuma fazer. Nosso papel vai além da documentação e da narrativa: nós contextualizamos, conectamos informações, disponibilizamos conhecimento e explicamos por que isso importa. Ao longo desses anos, o patrimônio sempre foi um tema recorrente. Portanto, quando o WMF surgiu, o momento pareceu perfeito — de certa forma, havíamos construído toda a nossa trajetória em direção a isso. Eles trouxeram o conhecimento em conservação, a experiência prática e os projetos ativos. Nós trouxemos nossa equipe editorial, nosso público global e nosso arquivo. Não poderia haver momento melhor.

JOA: Quando entrei no World Monuments Fund como arquiteto, há quase dez anos, percebi o quanto nossa área era compartimentada. Muitos especialistas que trabalhavam na preservação do patrimônio não faziam parte, de fato, das discussões e discursos arquitetônicos mais amplos. A parceria com o ArchDaily é uma forma de reconectar os debates especializados do campo do patrimônio com o discurso arquitetônico geral. Não há parceiro melhor para isso: o ArchDaily está genuinamente moldando e participando ativamente da conversa global sobre arquitetura.

CH: Eu acrescentaria mais uma dimensão: o que o World Monuments Fund e o ArchDaily possibilitam juntos não é apenas garantir que a arquitetura de relevância sobreviva fisicamente, mas também que o conhecimento ao seu redor seja preservado. Esse, para mim, é o cerne desta parceria.

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Estádio Sardar Patel (Estádio Navrangpura), Ahmedabad. Imagem © Carlo Fumarola via Wikipedia sob licença CC BY-SA 3.0

RB: Uma das características definidoras desta parceria é o foco na arquitetura modernista, com ênfase especial no Sul Global. Javier, por que você considera esse o recorte ideal para esta colaboração?

JOA: O que inicialmente me atraiu para o campo da preservação e documentação da arquitetura modernista foi a oportunidade de contar uma história mais ampla sobre a arquitetura do século XX. Em minha experiência como arquiteto, a narrativa estabelecida em torno do patrimônio arquitetônico moderno ainda é muito restrita, focada principalmente nos Estados Unidos e na Europa.

Contudo, o modernismo não se limitou a essas regiões. Ele assumiu diferentes formas na América do Sul, na África Subsaariana, no Sul da Ásia e no Oriente Médio, adaptando-se a diferentes climas, materiais e tecnologias. Desde que entrei para o WMF, parte da minha missão tem sido contar essa história mais ampla por meio de nossos sítios e projetos.

Para citar exemplos concretos: desenvolvemos um plano de gestão de conservação para o Estádio Sardar Vallabhbhai Patel na Índia, uma estrutura brutalista projetada por Charles Correa e Mahendra Raj durante o período pós-independência. A urgência aumentou após a demolição de outros marcos modernistas no país, mas também porque esses edifícios estão envelhecendo e exigem uma gestão de conservação especializada. Na África, estamos trabalhando atualmente em Ouagadougou, Burkina Faso, em um exemplo notável e relativamente desconhecido de arquitetura modernista profundamente enraizada no clima local e nas tradições construtivas vernáculas, utilizando terra e ventilação natural. A parceria com o ArchDaily é uma oportunidade de expandir essa narrativa global, ao mesmo tempo em que aborda os reais desafios técnicos que esses edifícios enfrentam.

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Maison du Peuple / René Faublée. Imagem via World Monuments Fund

RB: Christele, você mencionou a cobertura do ArchDaily sobre patrimônio ao longo dos anos. Como você vê o trabalho do WMF se alinhando à agenda do ArchDaily?

CH: Ser global é a base do ArchDaily, mas nosso esforço tem sido o de nos tornarmos mais intencionais sobre o que "global" realmente significa. Não se trata apenas de publicar projetos de diversos países, mas sim de compreender a arquitetura em todo o seu contexto: moldada pelo clima, cultura, política, materiais, economia, comunidades e história. Isso se aplica diretamente ao modernismo. Há muito questionamos a ideia de que os movimentos arquitetônicos se irradiaram, inalterados, de um único centro para fora. Sabemos que eles foram transformados, hibridizados, apropriados e contestados. África, Oriente Médio, América Latina, Ásia Central — todos esses lugares produziram histórias singulares de modernismo.

Quando escolhemos o que publicar e como contextualizar, estamos participando da construção da história da arquitetura. Estamos ajustando a narrativa. Esse tem sido o cerne do nosso trabalho há pelo menos uma década.

Com o WMF, temos a oportunidade de ir além: descobrir mais lugares, mais contextos, mais projetos e impulsionar a ideia de que preservar o modernismo também significa moldar o que se torna visível e o que passa a ser adotado como referência.

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Exterior do Cinema Estúdio Namibe, Angola. Crédito da foto: Walter Fernandes
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Casa A. Conger Goodyear. Imagem via World Monuments Fund

RB: Quando pensamos em patrimônio, os edifícios modernistas não desfrutam do mesmo prestígio que, por exemplo, uma catedral gótica ou uma cidade medieval no que diz respeito à preservação. Javier, como vocês defendem a relevância desse tipo de trabalho? Como é a abordagem com governos, comunidades e outros agentes interessados?

JOA: Esse é o desafio fundamental. Um edifício medieval, um castelo, uma catedral ou uma mesquita são automaticamente reconhecidos como locais de valor e significado históricos. Já um edifício das décadas de 1950, 1960 ou 1970 precisa provar constantemente que incorpora valores patrimoniais, relevância histórica e inovação arquitetônica. Isso é frustrante para quem trabalha nessa área, mas também é o desafio central que todos nós ajudamos a superar.

Nossa abordagem se baseia na interpretação e na educação. Trabalhamos para demonstrar — às comunidades que vivem próximas a esses locais, aos governos e ao público em geral — que o valor desses espaços não se baseia apenas na idade, mas sim no contexto político e histórico em que foram construídos e na inovação arquitetônica que representam.

Tomemos como exemplo o Africa Hall das Nações Unidas, em Adis Abeba, reconhecido pelo WMF em 2026 por seu projeto de restauração. Sua importância não se deve ao fato de pertencer a uma década específica, mas reside no que representa: a descolonização, a consolidação institucional na África e a criação de uma plataforma continental para o debate político. O fato de ter sido construído na Etiópia — o único país africano que nunca foi colonizado — constitui, por si só, uma camada de profundo significado histórico. Há também uma notável inovação arquitetônica no uso do concreto armado. Ainda há muito a ser feito em termos de interpretação e difusão de conhecimento para superar a percepção de que esses edifícios são recentes demais para serem preservados. Na verdade, muitos deles já estão se aproximando do centenário. É na interpretação, em última análise, que reside a oportunidade.

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O histórico Africa Hall das Nações Unidas após a renovação pelo escritório Architectus Conrad Garget. Imagem © Rory Gardiner

RB: Muitas das cidades onde esses edifícios estão localizados enfrentam um rápido crescimento urbano. Como a conservação e o desenvolvimento urbano podem coexistir? Como equilibrar o interesse público, o valor da terra e a preservação de edifícios que, como você mencionou, não são medidos apenas pela idade?

CH: Não os vejo como forças opostas. Costumamos esquecer que as cidades são organismos vivos e que o patrimônio — os edifícios de que estamos falando — sempre fez parte desses sistemas, evoluindo junto com eles. A pergunta que deveríamos nos fazer constantemente é de que maneira permitimos que nossas cidades mudem, cresçam e evoluam, ao mesmo tempo em que compreendemos o legado cultural, social e patrimonial que elas já carregam.

E não se trata apenas de saber qual é esse valor, mas sim de quem o define. Essa questão é crucial. O WMF realiza um trabalho fundamental ao redefinir quais edifícios podem ser considerados valiosos — não necessariamente por causa de técnicas construtivas específicas, mas por seu lugar na malha urbana, pelas histórias que guardam e por como se inserem na vida das comunidades ao seu redor. Em cidades que mudam rapidamente, as populações que habitam esses locais precisam participar da definição de seu futuro. O patrimônio não pode ser delimitado apenas sob uma ótica institucional ou arquitetônica, ignorando seu valor coletivo e vivenciado. Não é uma escolha entre conservação ou crescimento urbano: a questão é como nossas cidades podem evoluir com maior consciência do que já existe, do que precisamos preservar e do que podemos perder nesse processo.

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Maison du Peuple / René Faublée. Imagem © usuário do Wikipedia Sputniktilt sob licença CC BY-SA 3.0

JOA: Concordo plenamente. As pessoas tendem a enxergar a conservação e o desenvolvimento como forças antagônicas, mas não deveria ser assim. Para mim, a questão é: como a arquitetura e a conservação podem servir como canais para embasar as decisões sobre o crescimento de nossas cidades? As cidades sempre mudaram — e o próprio modernismo foi um agente de transformação urbana no século XX. Portanto, a questão não é "conservação versus crescimento", mas sim como a preservação do patrimônio pode oferecer ferramentas para garantir que, quando as cidades mudarem, essas decisões sejam pautadas pelas necessidades da comunidade e pelos marcos culturais e históricos integrados ao ambiente construído.

A conservação, em vez de ser imposta, deve ser mais um recurso no nosso repertório — ajudando-nos a tomar decisões conscientes e sustentáveis. Prefiro encará-la como uma ferramenta para gerenciar a mudança, não para resistir a ela.

Por isso também defendo que profissionais de arquitetura participem de forma mais ativa no governo, em instituições como o WMF e em plataformas como o ArchDaily — pois é nesses espaços que essas ideias precisam se fazer presentes para gerar um impacto real.

CH: Isso é algo que repito constantemente: profissionais de arquitetura precisam ocupar cargos de tomada de decisão, especialmente na política. A mudança ocorre de forma mais rápida e com maior impacto quando parte desses espaços.

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Decorações de parede gravadas em concreto no interior do Cinema Estúdio Namibe, Angola. Crédito da foto: Walter Fernandes

RB: O que o público do ArchDaily encontrará na plataforma que não encontraria sem essa parceria?

CH: Estamos digitalizando os projetos do WMF e criando uma biblioteca on-line que os documentará por meio de artigos detalhados, narrativas, entrevistas, histórias e relatos de processos específicos de conservação. Nosso objetivo é transformar o arquivo do WMF em conhecimento arquitetônico ativo e integrá-lo ao ecossistema de conteúdo do ArchDaily.

JOA: Esta é uma oportunidade real para o WMF apresentar nosso trabalho de uma maneira totalmente diferente: contar uma história abrangente sobre o que temos feito na arquitetura moderna desde o início dos anos 2000, não apenas por meio de projetos concluídos, mas também de novos materiais que geraremos juntos. Falaremos sobre projetos em andamento e começaremos a trabalhar em uma nova iniciativa no próximo ano, tendo o ArchDaily como parceiro. O que mais me entusiasma é a ideia de que o viés editorial pode ser parte integrante do nosso trabalho — não algo que acontece a posteriori, mas que caminha lado a lado com o processo de conservação desde o início. 

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Casa Sobre el Arroyo, Amancio Williams. Imagem via World Monuments Fund

RB: Vocês poderiam nos contar mais sobre esse novo projeto para o ano que vem?

CH: Essa é a parte mais instigante. Sempre dizemos que a arquitetura importa, e esta é a nossa chance de demonstrar isso na prática. Trata-se do primeiro projeto de conservação apoiado financeiramente pelo ArchDaily, e esse compromisso financeiro é importante porque marca uma transição: deixamos de apenas documentar o valor para apoiá-lo ativamente.

Acompanharemos o processo do início ao fim, mostrando a evolução do projeto — suas etapas, fases e a história por trás dele. É um processo educativo por si só. Trata-se de uma extensão do que o ArchDaily já faz; vejo isso como o próximo passo, uma evolução natural.

JOA: Sem dúvida. Esta é uma oportunidade de ir além de uma parceria de comunicação convencional e colocar tudo o que discutimos em prática. O WMF está constantemente incorporando novos locais, e o escopo varia muito — desde a restauração física até o planejamento de conservação, reuso adaptativo e campanhas de conscientização para locais sob ameaça. Ainda não sabemos exatamente que formato esse projeto assumirá com o ArchDaily, mas isso também faz parte do entusiasmo: explorar como o conhecimento editorial e de comunicação pode ser integrado a um projeto desde o início. O compartilhamento de conhecimento e a visibilidade também são formas de defesa do patrimônio — e muitos desses locais precisam disso com urgência. 

CH: O que considero mais instigante é utilizar um local específico como ponto de partida para questões mais amplas. Como o modernismo se transformou ao longo dos continentes? De que maneira as trajetórias políticas e sociais moldaram a arquitetura e como continuam a moldá-la hoje? Como as comunidades alteraram esses edifícios e o que essas transformações podem nos ensinar? De que forma tudo isso pode transformar nossa prática contemporânea? Usar esse sítio para responder a perguntas maiores — sobre patrimônio, sobre modernismo, sobre o mundo, sobre as narrativas que construímos —, é disso que se trata, na verdade.

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Sobre este autor
Cita: Romullo Baratto. "Um novo olhar sobre o patrimônio moderno: ArchDaily firma parceria com o World Monuments Fund" [A New Lens on Modern Heritage: ArchDaily Partners with World Monuments Fund] 01 Out 2026. ArchDaily em Português. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/pt/1185970/um-novo-olhar-sobre-o-patrimonio-moderno-archdaily-firma-parceria-com-o-world-monuments-fund> ISSN 0719-8906

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