
Este artigo foi publicado originalmente em 2 de novembro de 2015. Para ler as histórias por trás de outros projetos de arquitetura célebres, visite nossa seção AD Classics.
Como Norman Foster descreve na monografia de seu escritório, Foster 40, “Nossa transformação do Reichstag está enraizada em quatro questões interligadas: o significado do Bundestag como um fórum democrático, a compreensão da história, o compromisso com a acessibilidade pública e uma vigorosa agenda ambiental.”[1] A descrição de Foster parece bastante simples, mas o processo de criação do Novo Parlamento Alemão no Reichstag foi apenas o capítulo mais recente da longa, complexa e polêmica história do edifício.
Construído originalmente para abrigar o parlamento do Império Alemão, o Reichstag já era alvo de controvérsias antes mesmo do início de sua construção. Quando o concurso para o projeto do edifício foi anunciado em 1871, o local escolhido em Berlim já era ocupado pelo palácio do conde prussiano Raczynski, e ninguém havia pensado em informá-lo sobre os planos.[2] A recusa de Raczynski em vender suas terras em vida, somada à polêmica em torno da seleção de um arquiteto meio russo no concurso de projeto, atrasou o andamento dos trabalhos. Foi somente após um segundo concurso — restrito a arquitetos/as de língua alemã —, vencido por Paul Wallot, que a construção finalmente começou em 1884.[3] O projeto neoclássico de Wallot passou por diversas revisões, muitas vezes ao capricho dos três kaisers sucessivos que reinaram antes de o edifício ser finalmente concluído em 1894.[4] Um dos elementos mais marcantes do projeto de Wallot, a inscrição “Dem Deutschen Volke” (“Ao Povo Alemão”) no frontão principal do edifício, foi vista inicialmente pelo Kaiser como um populismo de mau gosto, sendo acrescentada apenas em 1916 como um símbolo patriótico durante a Primeira Guerra Mundial.[5]

Desde sua conclusão, o edifício desempenhou diversos papéis coadjuvantes na história mundial, a começar pelo incêndio de 1933, supostamente provocado por um comunista holandês, que permitiu a ascensão de Hitler ao poder. Com o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, os soviéticos usaram o Reichstag, fortemente danificado, como cenário para fotos de propaganda que encenavam a captura da cidade. Os esforços de restauração avançaram lentamente após a guerra, já que o edifício ficava na linha de frente da Guerra Fria, no lado ocidental do Muro de Berlim. Os planos para restaurar o edifício para um eventual uso parlamentar foram interrompidos em 1971, quando o governo da Alemanha Ocidental concordou em não realizar sessões do Bundestag no Reichstag em troca de a Alemanha Oriental facilitar o acesso a Berlim Ocidental.[6] Em uma última reviravolta histórica, antes do início das obras de renovação da Foster + Partners em 1995, todo o edifício foi embrulhado em enormes faixas de tecido, em uma intervenção artística de Christo e Jeanne-Claude.

Após a reunificação alemã, duas votações apertadas no parlamento confirmaram a transferência da capital para Berlim e o Reichstag como sede do parlamento alemão, o Bundestag. Em 1992, o escritório Foster + Partners foi um dos quatorze escritórios estrangeiros convidados a participar de um concurso de projetos para a reabilitação do edifício do Reichstag, ao lado de 80 arquitetos/as alemães. Foster sabia que era um convite irrecusável, mas também duvidava de que um/a arquiteto/a estrangeiro/a pudesse vencer o concurso. No fim, os/as três finalistas do concurso eram estrangeiros/as: Foster, Santiago Calatrava e Pi de Bruijn. O projeto original de Foster para o concurso previa uma cobertura de aço e vidro sobre a estrutura original, estendendo-se para o norte até se conectar com o rio Spree. Como descreveu Deyan Sudjic: “Semelhante a uma mesa gigante pousada sobre o parlamento, a cobertura teria transformado completamente o seu significado, tornando o projeto um memorial do passado e, ao mesmo tempo, demonstrando que o novo edifício parlamentar representava uma ruptura com a história.”[7]
Contudo, à medida que o entusiasmo da reunificação diminuía, as realidades financeiras da reconstrução da infraestrutura nacional começaram a se impor, e os/as três finalistas foram solicitados/as a reduzir os custos de suas propostas na segunda fase do concurso. Apesar desse pedido, a comissão do concurso recusou-se a fornecer um orçamento limite para o edifício proposto. Assim, em vez de fazer ajustes em seu projeto original, como fizeram os/as demais concorrentes, Foster começou do zero, propondo quatro esquemas possíveis com “uma gama de estimativas para mostrar como mais ou menos intervenções poderiam ser realizadas no edifício.”[8] Foi uma dessas propostas que acabou sendo selecionada para a construção, mas, assim como ocorreu no processo da estrutura original do século XIX, o fim do concurso não marcou o encerramento do trabalho de projeto.

Como sede do parlamento alemão, quase toda decisão de projeto, das grandes diretrizes aos mínimos detalhes, assumia um significado político. Em nenhum lugar isso ficou mais evidente do que na cúpula. O projeto vencedor de Foster não incluía uma cúpula, mas quase imediatamente após a conclusão do concurso, alguns/as parlamentares começaram a exigir a reconstrução da cúpula original. Como relata Sudjic:
“Todos os vestígios daquela cúpula original haviam sido destruídos por uma combinação de guerra, incêndio, negligência e reconstrução pós-guerra. Fazer uma reconstrução literal de sua antiga aparência ia contra todos os princípios arquitetônicos em que Foster acreditava. Ainda assim, para uma minoria barulhenta e influente na Alemanha, seria impensável construir um novo parlamento sem uma cúpula.”[9]
Embora de início tenha se recusado a cogitar a adição de uma cúpula, uma proposta paralela de um/a arquiteto/a alemão para reconstruir a estrutura histórica ameaçou a visão de Foster para os espaços internos do edifício, levando-o a explorar caminhos para o que passou a chamar de “cúpula” (cupola).[10] E não foi apenas a cúpula que ficou sujeita aos caprichos dos políticos. O então chanceler Helmut Kohl insistiu em um esquema de cores mais vivas para os interiores do que a paleta neutra de brancos e cinzas proposta originalmente por Foster — até mesmo a escultura da águia no plenário do parlamento foi tema de debates acalorados.[11]
Na verdade, é essa polêmica cúpula que melhor traduz os ideais de Foster para o projeto. A cúpula é a parte de maior acessibilidade pública do edifício: ela oferece uma conexão visual com os trabalhos no plenário logo abaixo, funciona como um componente do plano de sustentabilidade do edifício e, apesar da hesitação inicial de Foster, serve como uma referência à própria história do monumento. A cúpula também é a demonstração mais evidente da intervenção de Foster no edifício histórico. Embora represente um aceno ao passado do edifício, sua forma é inteiramente nova. Revestida de vidro transparente, a rampa helicoidal ao longo das bordas externas do espaço ajuda a definir o volume em forma de domo e conduz a um mirante de onde os visitantes podem contemplar a paisagem urbana de Berlim. Ao mesmo tempo, aberturas na base da cúpula revelam o plenário abaixo, estabelecendo um vínculo visual com as atividades do governo. Um cone invertido de painéis espelhados no centro da cúpula reflete a luz natural para o plenário e também auxilia na ventilação do edifício, exaurindo o ar quente pelo topo da estrutura.

Ainda que menos evidentes do que a cúpula, as outras intervenções de Foster no edifício não foram menos significativas. O projeto conseguiu consolidar os espaços funcionais do parlamento em um único edifício, incluindo, com destaque para os/as parlamentares, as salas de reuniões de bancadas (faction rooms), onde os partidos se reúnem para discutir políticas.[12] Foster também fez questão de preservar vestígios das diversas camadas históricas do edifício, sobretudo os grafites em cirílico que os soldados soviéticos riscaram nas paredes de pedra no final da Segunda Guerra Mundial. Além disso, Foster destaca com frequência o forte simbolismo do fato de o público e os políticos acessarem o edifício pela mesma entrada, sob o frontão clássico com a inscrição “Ao Povo Alemão”.[13]

No final das contas, o sucesso do Reichstag reside na capacidade de Foster de encontrar um meio-termo diante de um grupo de clientes exigentes e, muitas vezes, contraditórios. Apesar de tais concessões, Foster tem grande orgulho do resultado. Como descreve Sudjic: “Foster possui uma percepção aguçada das qualidades simbólicas da arquitetura, para além do papel puramente funcional que se espera dela. Se lhe perguntarem qual de suas obras ele considera a mais bem-sucedida, ele apontará, sem hesitar, o novo Reichstag.”[14]

[1] Foster, Norman. Foster 40: Projects. Munich: Prestel, 2007. 148.
[2] Pawley, Martin. “The Rise and Fall of the Reichstag.” Rebuilding the Reichstag. Woodstock, New York: The Overlook Press, 2000. 38.
[3] Pawley, 39.
[4] Pawley, 39.
[5] Pawley, 40.
[6] Pawley, 56.
[7] Sudjic, Deyan. Norman Foster: a life in architecture. New York: The Overlook Press, 2010. 201.
[8] Quantrill, Malcolm. The Norman Foster Studio: Consistency through diversity. London and New York: E & FN Spon, an imprint of Routledge, 1999. 172.
[9] Sudjic, 202.
[10] Sudjic, 203.
[11] Sudjic, 207-210.
[12] Quantrill, 172.
[13] Foster and Partners. Foster: Catalogue 2001. Munich: Prestel, 2001. 133.
[14] Sudjic, 197.
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Arquitetos: Foster + Partners
- Ano: 1999
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