
Como o projeto de arquitetura pode se tornar uma ferramenta ativa de conservação? Ao considerar a natureza como uma fonte inesgotável de inspiração, uma conexão harmoniosa com ela contextualiza as inúmeras inter-relações existentes entre seres humanos, organismos vivos e ciclos naturais. Projetar com a paisagem significa aprender a coexistir com suas dinâmicas temporais sem tentar controlar seus processos. Tradições, ecologia e o passado e o presente de um lugar contribuem para criar espaços que interpretam suas comunidades. A arquitetura paisagística pode se inspirar em aves, plantas e outros elementos naturais para moldar a complexa e dinâmica rede de ecossistemas e atividades humanas que compõem o meio ambiente.
Todos os seres vivos interagem com seu entorno e o modificam, influenciando simultaneamente outras espécies e suas relações, criando redes e conexões entre organismos e ambientes. Os seres humanos fazem parte desse movimento transformador, moldando cada território que habitam por meio de sua capacidade intelectual, riqueza cultural e habilidade de se organizar coletivamente. No entanto, essa capacidade hoje representa uma ameaça para muitas formas de vida, danificando funções ecológicas essenciais para a nossa própria existência. A tríplice crise ambiental — mudança climática, perda de biodiversidade e poluição — é, em grande parte, o resultado de uma profunda desconexão física, biológica e espiritual entre as comunidades humanas e os ecossistemas que sustentam as funções essenciais da vida.

Os serviços ecossistêmicos representam as contribuições tangíveis e intangíveis que a natureza oferece para a sobrevivência e o desenvolvimento humano. Destacando a importância dos ecossistemas para a vida humana, a Avaliação Ecossistêmica do Milênio — uma iniciativa global lançada pelas Nações Unidas entre 2001 e 2005 — classificou esses benefícios em quatro categorias: serviços de provisão (como alimentos, água, madeira, fibras e plantas medicinais); serviços de regulação (incluindo regulação climática, controle de enchentes, purificação de água e manejo de pragas); serviços de suporte (como formação do solo, fotessíntese e ciclagem de nutrientes); e serviços culturais (incluindo experiências recreativas, estéticas, educacionais, espirituais e culturais).
Atualmente, esse conceito evoluiu para "Contribuições da Natureza para as Pessoas" (NCP, na sigla em inglês), reconhecendo a relação dinâmica e de via dupla entre as pessoas e a natureza, ao mesmo tempo em que admite a diversidade de valores, percepções e sistemas de conhecimento que emergem dessa interação.
A beleza da natureza nos move como algo grandioso que aponta para além de nós mesmos. O ser humano vem da natureza e a ela retorna. Quando percebemos como bela uma paisagem que não domesticamos nem moldamos à nossa própria medida, tomamos consciência da dimensão de nossas vidas diante da incomensurabilidade da natureza. Sentimo-nos elevados; humildes e orgulhosos, tudo ao mesmo tempo. — Peter Zumthor, Pensar a Arquitetura

Refletindo sobre as maneiras como habitamos o planeta, a Fundación Cosmos é uma organização chilena dedicada a projetar infraestruturas e modelos de gestão territorial baseados na natureza. Reconhecendo a importância de reconectar as pessoas ao lugar, a organização atua por meio da arquitetura paisagística para integrar conservação ecológica, educação ambiental e uso público responsável, em colaboração com comunidades locais, governos municipais e órgãos públicos. Por meio de projetos desenvolvidos em áreas úmidas urbanas e periurbanas em todo o Chile, sua abordagem fundamenta-se na arquitetura vernacular e na biomimética, inspirando-se em espécies locais, dinâmicas ecológicas e saberes construtivos tradicionais.
Na Fundación Cosmos, entendemos que o design não pode ser um ato isolado ou imposto; deve ser uma resposta sensível e respeitosa aos territórios que habitamos. Por isso, trabalhamos com uma arquitetura que se inspira na natureza e dialoga com ela. Essa abordagem não apenas minimiza o impacto ecológico, mas também nos permite criar infraestruturas que fortalecem a conservação e geram experiências significativas para as comunidades. Para nós, projetar com a natureza é parte essencial de como imaginamos o futuro dos espaços públicos e naturais. — Felipe Correa, arquiteto e diretor de projetos da Fundación Cosmos

Descubra quatro projetos da Fundación Cosmos no Chile, inspirados em aves e insetos, que exploram o papel da arquitetura paisagística na transformação de ecossistemas em parques urbanos de áreas úmidas.
Torre de Observação Siete Colores
Na foz do Rio Maipo, na divisa entre os municípios de Santo Domingo e San Antonio, na Região de Valparaíso, no Chile, encontra-se o Parque Humedal Río Maipo. Como um espaço dedicado à conservação, ao lazer e à educação ambiental, a interação entre a água doce e a salgada, combinada com o aporte de nutrientes e a variação das marés, cria um ambiente produtivo e biodiverso. Mais de 190 espécies de aves e 147 espécies de plantas inspiraram o projeto de infraestruturas como passarelas, torres de observação e sinalização interpretativa que conectam as comunidades locais ao ecossistema.

Com sete metros de altura, a Torre de Observação Siete Colores inspira-se no ninho do papa-piri (Tachuris rubrigastra), ave que habita as áreas de junco e tece cuidadosamente seus ninhos a partir de fibras vegetais para proteger seus filhotes. Durante a fase de projeto, os estudos de solo recomendaram minimizar a escavação para as fundações. Observar a estratégia de nidificação da ave — que constrói um ninho cônico em torno de uma única haste de junco — tornou-se o princípio norteador do projeto.

A torre foi construída em torno de um único ponto de fundação, com um eixo estrutural central que sustenta a escada, o mirante e o revestimento externo. A forma cônica minimiza a pegada no nível do solo enquanto se expande em direção ao topo, onde se localiza a plataforma de observação. Essa solução reduz as escavações, respeita o fluxo hidrológico natural da área úmida e se integra visualmente à paisagem circundante, ao mesmo tempo em que oferece vistas panorâmicas do rio, dos juncais, do oceano e das áreas urbanas próximas.
Torre de Observação Rayador
Localizada na borda sudoeste do Santuário da Natureza, esta torre marca o limite entre a Praia de Marbella e a área protegida. A Torre de Observação Rayador foi concebida como um marco físico claro, sinalizando a entrada em uma área de conservação e reforçando o limite ecológico da área úmida. Seu design é inspirado no bico do talha-mar-negro (Rynchops niger), ave presente na região que deixa um rastro na superfície da água enquanto se alimenta.

A forma da torre faz referência ao comportamento dessa ave estuarina migratória, que voa rente à água com o bico parcialmente aberto, parecendo "cortar" ou "riscar" a superfície. Essa linha traçada sobre a água foi reinterpretada arquitetonicamente como uma condição de limite. Dessa forma, a torre adota o formato do bico da ave, representando simbolicamente a transição entre o espaço público e o habitat protegido.

Estruturalmente, o projeto é composto por pórticos triangulares de madeira sobrepostos, fechados com triangulações de bambu. A torre possui dois níveis conectados por uma escada central, culminando em um terraço com vista para a vegetação arbustiva costeira e o Oceano Pacífico.
Parque Chimalfe
Na região da Grande Concepción, um sistema de áreas úmidas que inclui Rocuant-Andalién, Vasco da Gama, Paicaví e Tucapel Bajo faz parte de uma matriz ecológica fragmentada com potencial para se tornar uma rede unificada de áreas naturais, oferecendo serviços ecossistêmicos para as comunidades locais. A Área Úmida Chimalfe exigia uma estratégia para regular o uso público e, ao mesmo tempo, conservar a natureza e criar espaços seguros para a população local. Por isso, foi desenvolvida uma condição de borda de transição entre a zona residencial e uma área arborizada conhecida como "Bosque Mágico". Um parque perimetral foi projetado em torno de um canal cuja ampliação é proposta para aumentar a oferta de serviços ecossistêmicos.

Inspirada em libélulas, a proposta surgiu por meio de oficinas participativas com a comunidade local de Hualpén. A presença do Chimalfe — "libélula" em mapudungun, a língua do povo Mapuche — serviu como inspiração formal para os marcos do parque. As asas da libélula, com sua forma característica e padrões geométricos, inspiraram o desenho de um grande abrigo que protege o público visitante das frequentes chuvas da região, funcionando também como um espaço educativo e interpretativo.

Da mesma forma, o corpo do inseto inspirou o desenho de uma torre de observação com sete metros de altura, que oferece vistas panorâmicas do ecossistema e cria um marco urbano reconhecível que apoia os esforços de conservação. Ambas as estruturas são conectadas por uma rede de passarelas que melhoram o acesso da comunidade e, ao mesmo tempo, protegem o ecossistema.
Parque Paicaví–Tucapel Bajo
Na Área Úmida Paicaví–Tucapel Bajo, declarada Área Úmida Urbana em 2023, o projeto inclui um novo portal de acesso que leva a uma área de educação ambiental associada a uma escola próxima. Esse espaço incorpora um sombreador e um pomar. O traçado do parque responde ao formato longo e estreito do terreno e à sua conexão visual com o sistema mais amplo de áreas úmidas, organizando e zoneando o espaço como um parque de conservação. Trilhas por entre a vegetação alta, passarelas elevadas que cruzam os juncais, iluminação de baixo impacto e sinalização interpretativa definem a experiência do público visitante.

Inspirado no voo da garça, o design incorpora uma estrutura de observação chamada "Traiwe" ("garça" em mapudungun). O projeto se inspira na garça-branca, espécie apontada por membros da comunidade durante as oficinas participativas como uma das aves mais representativas da área úmida. A partir da observação de seu comportamento, o projeto faz referência a três fases do voo: preparação, decolagem e voo.
As pessoas iniciam o percurso no nível do solo, subindo gradualmente por passarelas até alcançar um mirante elevado voltado para toda a área úmida. A subida lenta e progressiva reflete o movimento compassado da ave, enquanto a treliça de madeira em zigue-zague da torre de observação evoca a textura e a aparência de sua plumagem.

A estrutura consiste em uma passarela de madeira que se eleva por meio de rampas acessíveis, atingindo uma altura de 2,88 metros e um comprimento total de 5,95 metros. A passarela conduz a uma plataforma de observação com vista para os juncais, cercada por dois painéis de madeira curvos que mimetizam sutilmente as asas de uma garça em voo.
Cada um desses projetos reflete como todos os seres vivos fazem parte de uma teia interconectada na qual a existência de cada espécie depende da colaboração com as outras, e onde pequenas mudanças podem desencadear efeitos em cascata por todo o ecossistema. Os seres humanos são inerentemente sociais e cooperativos. Como afirma o historiador Yuval Noah Harari: "A verdadeira diferença entre nós e outros animais é a cola mítica que une grandes números de indivíduos, famílias e grupos". Desde as primeiras sociedades de caçadores-coletores até os dias atuais, os seres humanos prosperaram por meio da vida coletiva e da cooperação. A bióloga Lynn Margulis argumentava que "a vida não conquistou o globo pelo combate, mas pela formação de redes". Trabalhar em prol da criação de uma cidadania com consciência ecológica pode ajudar a abrir caminhos para enfrentar os desafios tanto do presente quanto do futuro.

Este artigo é parte do Tema do ArchDaily: Arquitetura Transespécie: A Vida dos Materiais, Alianças Ecológicas e a Agência da Natureza. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade por meio de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a saber mais sobre os Temas do ArchDaily. E, como sempre, no ArchDaily valorizamos as contribuições de nossas leitoras e leitores; se você deseja enviar um artigo ou projeto, entre em contato conosco.
Este artigo foi escrito por Agustina Iñiguez. A tradução é gerada por IA.
























