
A arquitetura costuma ser narrada a partir de princípios como ordem, clareza e funcionalidade. Em O Livro dos Labirintos, Francesco Perrotta-Bosch propõe outra entrada possível: pensar a disciplina a partir do labirinto — uma estrutura que, desde sua origem mítica, opera por meio do desvio, da ambiguidade e da perda de orientação.
Partindo do Labirinto de Creta, atribuído a Dédalo na mitologia grega, o autor desloca a discussão sobre a origem da arquitetura para um campo menos associado à racionalidade construtiva e mais próximo da experiência espacial. A questão que orienta o livro é direta: por que a arquitetura teria começado com uma forma que subverte linearidade e legibilidade?
Resultado de cinco anos de pesquisa, desenvolvida no âmbito de um doutorado com dupla titulação pela FAU USP e pela Università IUAV di Venezia, a publicação se organiza como uma investigação de longa duração. Ao longo de cerca de quatro mil anos, o labirinto é analisado não como um objeto isolado, mas como um princípio que reaparece em diferentes contextos históricos.
Da Antiguidade greco-romana às catedrais medievais e aos jardins da Idade Moderna, o livro acompanha a transformação dessa estrutura até sua presença em programas contemporâneos, como museus, aeroportos e shopping centers. Nesses casos, o labirinto deixa de ser uma figura literal e passa a operar como lógica de organização do espaço: uma sequência de percursos que constrói a experiência do usuário ao longo do tempo.

Ao propor essa leitura, Perrotta-Bosch tensiona a tradição moderna que privilegiou a transparência espacial e a orientação imediata. Em vez de um espaço que se oferece de forma integral e previsível, o labirinto introduz a ideia de um ambiente que se revela progressivamente, incorporando o erro, o retorno e a incerteza como parte da experiência arquitetônica. O livro articula referências de diferentes campos, aproximando arquitetura, literatura e artes visuais. Autores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar aparecem ao lado de obras de Richard Serra e projetos de Álvaro Siza, compondo um repertório que reforça o caráter transversal do tema.

O projeto gráfico, desenvolvido por Gustavo Piqueira (Casa Rex), acompanha essa abordagem ao propor uma leitura não linear. A publicação assume, em sua própria estrutura, o princípio que investiga: o deslocamento como método e a desorientação como ferramenta de compreensão.
Mais do que reconstruir a história de um símbolo, O Livro dos Labirintos propõe uma mudança de perspectiva sobre a própria arquitetura. Em um contexto marcado por sistemas de mapeamento cada vez mais precisos e pela otimização dos fluxos, o labirinto recoloca o espaço como campo de descoberta. Nesse sentido, o livro sugere que a arquitetura não se define apenas pela organização eficiente do mundo, mas também pela capacidade de lidar com aquilo que escapa ao controle — onde o percurso, mais do que o destino, se torna central.

Antes de O Livro dos Labirintos, Francesco Perrotta-Bosch publicou Lina: uma biografia (2021), dedicado à trajetória da arquiteta Lina Bo Bardi. Baseado em ampla pesquisa e levantamento de fontes inéditas, o livro apresenta a vida e a obra da arquiteta, abordando projetos como o MASP, o Sesc Pompeia e o Solar do Unhão, além de discutir sua relação com a cultura brasileira.






